domingo, 9 de setembro de 2012

Qual a cor de seu conceito





        Dias atrás, tive uma pequena discussão com uma moça que gosto muito. Ela comentou que era “racista”, que não gostava dos chineses. E argumentou falando de como eles tratam suas crianças, e por comerem cães (ela adora animais). E tantas outras coisas. Para nosso azar, estava em plena crise de TPM - “Testosterona Power Mix”, ou simplesmente, a TPM masculina. E ai, que o bicho pegou. Fiquei indignado. Quis por que quis fazer ver o quanto aquilo era errado. O quanto o pré-conceito é nefasto, e pode afetar as vidas das pessoas, em especial a das chamadas minorias (Homossexuais, negros, amarelos, etc). No fim, nos despedimos, a conversa foi por celular, acabou com gosto amargo de nada resolvido.

           Percebi que faltavam palavras e dados para justificar o que, para mim, é evidente: o racismo existe em nosso país, e é errado!

            Neste feriadão, passei então a ler sobre o assunto. Baixei dois artigos da internet, um é do professor e sociólogo Antonio Sérgio Alfredo Guimarães, denominado: “Preconceito de cor e racismo no Brasil”. O outro, “O desafio de eliminar o racismo no Brasil: a nova institucionalidade no combate à desigualdade racial” de Alexandre Ciconello.

            No primeiro, muito bem escrito, numa linguagem erudita e acadêmica, (aqui devo confessar que terei de reler o texto pelo menos mais umas cinco vezes para assimilar tudo). Que o tema racismo há muito é estudado. E que o Brasil serviu de “laboratório”, para pesquisas norte americanas e europeias. Já que para eles, o Brasil com sua historia escravista, e uma população formada por 50% de descendentes dos povos africanos, e mesmo assim, não exibia os conflitos tão marcadamente violentos de segregação racial existentes em seus países. Era algo impar a ser estudado. A grosso modo, a ideia era entender como era possível, no Brasil, “raças” diferentes conviverem tão bem, sem o desejo macabro de pendurar alguém numa cruz e tacar fogo, só porque era de outra cor.

          Assim, entre uma teoria e outra, surgiu e se transformou em ideologia: a da democracia racial. Que, pelo que entendi até o momento, é a responsável em se acreditar, em nosso país que “o problema, dizem, não é o racismo, é a pobreza; as desigualdades não são raciais, são sociais”.

           Conforme Alexandre Ciconello, em seu estudo de caso, no qual aponta que “O racismo é identificado e reconhecido pela população brasileira. Uma pesquisa de opinião realizada pela Fundação Perseu Abramo em 2003 (Santos & Silva, 2005), demonstra que 87% dos brasileiros/as admitem que há racismo no Brasil, contudo apenas 4% se reconhecem como racista. Podemos extrair duas consequências desses dados: a primeira é que o racismo existe não pela consciência de quem o exerce, mas sim pelos efeitos de quem sofre seus efeitos. A segunda consequência é que o racismo no Brasil, embora perceptível, se localiza sempre no outro, nunca nas práticas cotidianas de seus agentes, o que torna ainda mais difícil sua superação.”
E ainda mais, Ciconello escreve: “nos shopping centers de elite, onde os trabalhadores negros são confinados em postos de vigias ou faxineiros e raramente empregados em atividades de atendimento ao público; na programação televisiva, onde os negros/as, quando aparecem, ocupam as tradicionais posições de subordinação (a empregada doméstica, o bandido, a prostituta, o menino de rua, o segurança); nas piadas e expressões de cunho racista sempre presentes nas reuniões de família brancas. Expressões como “não sou racista, mas nunca aceitaria meu filho ou filha se casando com um negro/a” são comuns no Brasil”.

“negros nascem com peso inferior a brancos, têm maior probabilidade de morrer antes de completar um ano de idade, têm menor probabilidade de freqüentar uma creche e sofrem de taxas de repetência mais altas na escola, o que leva a abandonar os estudos com níveis educacionais inferiores aos dos brancos. Jovens negros morrem de forma violenta em maior número que jovens brancos e têm probabilidades menores de encontrar um emprego. Se encontrarem um emprego, recebem menos da metade do salário recebido pelos brancos, o que leva a que se aposentem mais tarde e com valores inferiores, quando o fazem. Ao longo de toda a vida, sofrem com o pior atendimento no sistema de saúde e terminam por viver menos e em maior pobreza que brancos”.  (IPEA 2007, p. 281).

           Na minha infância e adolescência, parte dos meus amigos, vizinhos e conhecidos eram negros.  E cresci achando que tudo era igual.

         E, assim, ao escutar alguém tratar um colega, sendo este visto como querido e camarada, de “negão” e não pelo nome, fico chateado por ele. Quando escuto alguém, de cor branca, falar: “eles, os negros é que são racistas!” fico chateado com ele.            

        Mas, hoje, ao perceber nas práticas cotidianas da grande maioria, o pré-conceito de cor, de sexo, de religião, de orientação sexual, e de tantas outras coisas, fico pensando no que posso fazer para meus filhos serem diferentes da maioria. Talvez falar abertamente, reconhecer e apontar a existência de tal doença – o pré-conceito. 
         O que sei é que não vou permitir vestir ou vestirem os meus com o véu da ilusão.  



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