Dias atrás, tive uma pequena discussão
com uma moça que gosto muito. Ela comentou que era “racista”, que não gostava
dos chineses. E argumentou falando de como eles tratam suas crianças, e por
comerem cães (ela adora animais). E tantas outras coisas. Para nosso azar, estava
em plena crise de TPM - “Testosterona Power Mix”,
ou simplesmente, a TPM masculina. E ai, que o bicho pegou. Fiquei indignado. Quis por que quis
fazer ver o quanto aquilo era errado. O quanto o pré-conceito é nefasto, e pode
afetar as vidas das pessoas, em especial a das chamadas minorias (Homossexuais,
negros, amarelos, etc). No fim, nos despedimos, a conversa foi por celular,
acabou com gosto amargo de nada resolvido.
Percebi que faltavam
palavras e dados para justificar o que, para mim, é evidente: o racismo existe em
nosso país, e é errado!
Neste feriadão, passei então a ler sobre o
assunto. Baixei dois artigos da internet, um é do professor e sociólogo Antonio
Sérgio Alfredo Guimarães, denominado: “Preconceito de cor e racismo no Brasil”.
O outro, “O desafio de eliminar o racismo no Brasil: a nova
institucionalidade no combate à desigualdade racial” de Alexandre Ciconello.
No primeiro, muito bem escrito, numa
linguagem erudita e acadêmica, (aqui devo confessar que terei de reler o texto
pelo menos mais umas cinco vezes para assimilar tudo). Que o tema racismo há
muito é estudado. E que o Brasil serviu de “laboratório”, para pesquisas norte
americanas e europeias. Já que para eles, o Brasil com sua historia escravista,
e uma população formada por 50% de descendentes dos povos africanos, e mesmo
assim, não exibia os conflitos tão marcadamente violentos de segregação racial existentes
em seus países. Era algo impar a ser estudado. A grosso modo, a ideia era
entender como era possível, no Brasil, “raças” diferentes conviverem tão bem,
sem o desejo macabro de pendurar alguém numa cruz e tacar fogo, só porque era
de outra cor.
Assim, entre uma teoria e outra, surgiu
e se transformou em ideologia: a da democracia racial. Que, pelo que entendi
até o momento, é a responsável em se acreditar, em nosso país que “o problema,
dizem, não é o racismo, é a pobreza; as desigualdades não são raciais, são
sociais”.
Conforme Alexandre Ciconello, em seu
estudo de caso, no qual aponta que “O racismo é identificado e reconhecido pela
população brasileira. Uma pesquisa de opinião realizada pela Fundação Perseu
Abramo em 2003 (Santos & Silva, 2005), demonstra que 87% dos brasileiros/as
admitem que há racismo no Brasil, contudo apenas 4% se reconhecem como racista.
Podemos extrair duas consequências desses dados: a primeira é que o racismo
existe não pela consciência de quem o exerce, mas sim pelos efeitos de quem
sofre seus efeitos. A segunda consequência é que o racismo no Brasil, embora
perceptível, se localiza sempre no outro, nunca nas práticas cotidianas de seus
agentes, o que torna ainda mais difícil sua superação.”
E ainda mais, Ciconello escreve: “nos
shopping centers de elite, onde os trabalhadores negros são confinados em
postos de vigias ou faxineiros e raramente empregados em atividades de
atendimento ao público; na programação televisiva, onde os negros/as, quando
aparecem, ocupam as tradicionais posições de subordinação (a empregada
doméstica, o bandido, a prostituta, o menino de rua, o segurança); nas piadas e
expressões de cunho racista sempre presentes nas reuniões de família brancas.
Expressões como “não sou racista, mas nunca aceitaria meu filho ou filha se
casando com um negro/a” são comuns no Brasil”.
“negros nascem com peso inferior
a brancos, têm maior probabilidade de morrer antes de completar um ano de
idade, têm menor probabilidade de freqüentar uma creche e sofrem de taxas de
repetência mais altas na escola, o que leva a abandonar os estudos com níveis
educacionais inferiores aos dos brancos. Jovens negros morrem de forma violenta
em maior número que jovens brancos e têm probabilidades menores de encontrar um
emprego. Se encontrarem um emprego, recebem menos da metade do salário recebido
pelos brancos, o que leva a que se aposentem mais tarde e com valores
inferiores, quando o fazem. Ao longo de toda a vida, sofrem com o pior
atendimento no sistema de saúde e terminam por viver menos e em maior pobreza
que brancos”. (IPEA 2007, p. 281).
Na minha infância e adolescência,
parte dos meus amigos, vizinhos e conhecidos eram negros. E cresci achando que tudo era igual.
E, assim, ao escutar alguém tratar um colega,
sendo este visto como querido e camarada, de “negão” e não pelo nome, fico
chateado por ele. Quando escuto alguém, de cor branca, falar: “eles, os negros
é que são racistas!” fico chateado com ele.
Mas, hoje, ao perceber nas práticas cotidianas da grande maioria, o pré-conceito de cor, de
sexo, de religião, de orientação sexual, e de tantas outras coisas, fico
pensando no que posso fazer para meus filhos serem diferentes da maioria.
Talvez falar abertamente, reconhecer e apontar a existência de tal doença – o pré-conceito.
O que sei é que não vou permitir vestir ou vestirem os meus com o véu da ilusão.